Mais uma ameaça a jornalista

23_11_2011_corrupçao 4 (1)Ainda há muito o que se fazer, mas escrever sobre a verdade nua e crua é o meio mais eficaz de se combater a tirania, os desmandos, o autoritarismo e a corrupção. Com o bom jornalismo também será possível acabar com a podridão existente em organismos do Estado, principalmente nas forças de segurança: Polícia Militar ou Polícia Civil.

É crônico o estado de podridão existente nas polícias. Todo mundo sabe, todo mundo vê, mas ninguém faz absolutamente nada. Enquanto isso, homens disfarçados de agentes da lei, passam para o lado da criminalidade, onde se tem dinheiro fácil. Esse, o mal dos males.

Com baixos salários e péssima formação de caráter e profissionalismo, agentes públicos da segurança são envolvidos pelas quadrilhas de criminosos, principalmente aquelas que movimentam milhões de reais, caso do narcotráfico e do roubo de cargas. Nesse nicho, a guerra está mais perdida que ganha. As quadrilhas compram informações de policiais, muitas vezes quem deveria agir na prisão delas. Mas não é só isso. O criminoso, fora ou dentro dos presídios, sabe perfeitamente que será obrigado a pagar sua mensal para permanecer livre, a propina coletada semanalmente para que fique longe das celas.

O envolvimento de agentes de segurança com o crime alimenta a corrupção existente dentro das corporações. Não é a toa que servidores desta área, que recebem pouco mais de 2 mil reais mensais, desfilam seus carrões e motões de valores muito acima da média de qualquer brasileiro. E, nestes casos, não há como justificar já que boa parte nunca pertenceu a família com posses (principal explicação dada para esclarecer como possuem casas, terrenos, carros, que tanto se vangloriam de possuir). Dos que estão nas ruas, na ação, partem as colheitas para os que estão acima, nos departamentos ou batalhões, e assim por diante. Todo mundo quer sua fatia.

O envolvimento com o crime coloca o jornalismo na mira. Se falar bem, colabora para com a ordem pública. Se falar mal,  é ameaçado, porque a verdade dói, seja a quem for. É comum policiais corruptos procurar ex-presidiários e fazer deles seus cofres. Se não roubar e pagar , são levados de volta ao presídio, porque basta uma palavra do homem do Estado e o ex-presidiário já voltou ao mundo do crime. Das quadrilhas vem o dinheiro mais grosso, que completa os baixos salários e por isso prender ou acabar com elas está fora dos planos.

O bom jornalismo se presta a denunciar essa podridão ou o uso ilegal dos bens públicos oferecidos como ferramenta de trabalho, mas que, muitas vezes, tornam-se utensílios privados para quem deles faz uso diário. E chega a tal ponto de usar a viatura como carro da família, de transporte escolar, de transporte hospitalar e até de férias e lazer. É comum em, cidades da Grande São Paulo e, principalmente, no interior ver viaturas policiais estacionadas em casas de shows, boates, casas de prostituição, sempre com a velha máxima de que os agentes estão em serviço. Se indagados, a resposta é sempre a mesma e em tom ameaçador: “vai falar o contrário…”

É isso o que aconteceu com o jornalista , Mauri König, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo Abraji – agora o caso mais recente de ameaça depois do episódio André Caramante, em São Paulo. König não recebeu as ligações dadas à redação do jornal Gazeta do Povo, em Curitiba, no Paraná, mas um colega de redação o avisou de que sua casa poderia ser metralhada. As ameaças começaram depois que  König denunciou o uso ilegal de viaturas por policiais, conforme texto que você vê abaixo. Confira:

Diretor da Abraji recebe ameaça de morte no Paraná  

Mauri König, diretor da Abraji e repórter do jornal Gazeta do Povo foi vítima de ameaças na última segunda-feira (17.12.2012). Diferentes pessoas telefonaram ao jornal, em Curitiba, e fizeram ameaças diretas e também alertas sobre ataques que estariam sendo planejados contra repórteres. Mauri König foi citado nominalmente: sua casa seria metralhada.   Um jornalista da RPC TV, emissora do mesmo grupo da Gazeta, atendeu a um dos telefonemas.

De acordo com ele, o interlocutor se identificou como policial militar e disse ter ouvido de colegas que cinco PMs do Rio de Janeiro estavam em Curitiba para metralhar a casa de Mauri. O motivo seria uma investigação conduzida pelo repórter.   Em maio, ele coordenou uma série de reportagens publicada na Gazeta sob o título “Polícia Fora da Lei”.

Os textos revelaram, por exemplo, que agentes usavam viaturas da corporação para compromissos pessoais – inclusive visita a casas de prostituição em horário de expediente. À época, o blog policial da publicação recebeu comentários anônimos com ameaças aos jornalistas envolvidos na apuração. Mauri foi descrito como “inimigo número 1 da Polícia Civil”.

Nessa segunda-feira (17.12.2012) a Gazeta do Povo publicou novo texto sobre a corporação, desta vez dando conta de uma possível promoção de agentes que estariam sendo investigados pelo uso de viaturas para fins pessoais.   Mauri König e sua família deixaram a casa em que viviam em Curitiba. Eles estão em endereço desconhecido, sob proteção constante de seguranças contratados pelo jornal. A Gazeta do Povo também ajudará o jornalista a deixar o Paraná.

O GAECO (Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado), órgão que também é responsável pelo controle externo das polícias no Paraná, tenta identificar os autores das ameaças.   A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lamenta e condena as ameaças feitas contra seu diretor, o repórter Mauri König.

Mauri é a vítima mais recente de uma escalada de violência contra jornalistas no Brasil. De acordo com o Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ), só em 2012, quatro jornalistas brasileiros foram mortos por exercerem sua profissão. Também por causa de ameaças, o repórter policial André Caramante, da Folha de S.Paulo, teve de se afastar da redação em setembro deste ano.

A Abraji cobra apuração célere das ameaças contra Mauri König, que são ameaças também à liberdade de expressão e à democracia. Tentar calar um repórter é atentar contra o direito de saber de toda a sociedade.

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