Valério, o homem que sabe demais

Eu comparo o que está acontecendo no noticiário diário sobre o ex-patrão geral da Nação com o que acontece na rua Japurá, centro de São Paulo. Bem no meio desta metrópole, a quarta maior do mundo,  a rua Japurá é uma ruazinha sem muita importância, pois serve mais para estacionamento de veículos de quem trabalha nas redondezas, como funcionários da Câmara Municipal de São Paulo, por exemplo, e para fazer um retorno caso passe das entradas para o Legislativo paulistano. O que pouca gente sabe é que caminhar por essa rua é um “perigo”. Tanto pela calçada como pelo meio fio, há “fezes” de animais e seres humanos em todo lugar. Isso, bem diante dos olhos dos “nobres vereadores” – aqueles que quase atropelam os transeuntes quando querem “entrar” com seus carrões pela entrada lateral – na rua Santo Antonio – no estacionamento da “casa”.

Assim como a “sujeira” está espalhada diante da Câmara Municipal em plena via pública e diante dos “nobres” que cuidam e fiscalizam a administração pública, mas só tem olhos mesmo para seus próprios umbigos e seus folpudos salários, lá em Brasília, a coisa é assim também. A “sujeira” está na cara de todo mundo, de todas as “autoridades” deste país, mas ninguém quer ver, ninguém quer enxergar. Investigar mesmo, que é bom…menos ainda.

A investigação que levou a descoberta do escândalo da “Rose” – Rosemary – aquela chefe do Gabinete da Presidência em Sâo Paulo – feita pela Polícia Federal – escapou do notíciário porque se criou outro factóide menos provável de ferir as constantes fugas do ex-presdiente Luis Inácio Lula da Silva. Ele que nunca sabe de nada, que diz que “tudo é jogada da imprensa contra o PT”.

O mesmo PT que – por meio de José Dirceu – quer controlar a mídia e até mesmo o Judiciário continua zombando de tudo e de todos. É a fórmula do partido para controlar o Estado e calar as vozes contrárias, algo que se chama, de forma clara, controle geral, autoritarismo.

Assim como a sujeira na rua Japurá é “um perigo” para os transeuntes que podem, literalmente, pisar na “mer.., mas ninguém se preocupa com a limpeza da via pública, também há um “perigo no ar” com essas constantes denúncias publicadas na mídia e que pouca ou nenhuma medida mais a fundo é tomada.

A última é a do senhor Marcos Valério, homem que sabe demais e que pode terminar como o ex-prefeito de Santo André. Para confirmar o que disse, sobre Lula saber do mensalão e de ter usufruido de dinheiro do esquema, e por ter sofrido rechaços da tropa de choque do PT em defesa do líder, o operador do mensalão afirmou ter entregue “provas” no depoimento que fez à Procuradoria.

Muito pouco se pode esperar em termos de investigação dessas denúncias, tanto pela Polícia Federal como da própria Procuradoria. Setores da Polícia Federal, em São Paulo, conseguiram  fugir à regra e do controle do partido – via ministro Eduardo Cardozo (Justiça) – para apurar e divulgar o exercício ilegal de poder de gente graúda, afilhada, amante e ligados ao ex-patrão geral da Nação. O ministro Cardozo em entrevista coletiva à imprensa disse que não havia perdido o controle da PF em São Paulo, mas  – quem não sabe, deve saber – a mídia só teve acesso a investigação porque um delegado “vazou a informação” antes que o controle fosse determinado e o escândalo envolvendo o nome do ex-presidente fosse impedido de ser noticiado.

Enfim, agora é a vez de Marcos Valério ser tratado como bandido. Finalmente, agora é um homem cujas palavras não podem ser consideradas, porque é um fora-da-lei. Ao que me lembre, o ex-presidente continua afirmando por aí que o “mensalão não existiu”. E, se não existiu, Valério então é acusado de que? Se é alguém em quem não “se pode dar ouvidos”, por que então o esquema de corrupção, uso de dinheiro público, continua sendo apenas uma “miragem aos olhos do presidente e da atual presidenta”?

Enfim, quanto mais mexer, mais a “sujeira”  vai se espalhar. É como na rua Japurá. Você pula um dejeto aqui, tem outro ali…Desvia de um ali, tem outro lá. Foge daquele lá, já tem mais, esperando mais adiante…A bravataria petista, um dia acabará, se não acabarem (ou sumirem) com as provas antes. 

Leia material sobre o tema publicado na Folha de São Paulo, hoje

Valério diz que entregou provas à Procuradoria

CATIA SEABRA
ANDREZA MATAIS
DE BRASÍLIA
REYNALDO TUROLLO JR.
ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE

Operador do mensalão e condenado a mais de 40 anos pelo caso, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza disse à Folha que entregou ao Ministério Público Federal documentos comprovando acusações feitas em seu novo depoimento, que envolvem o ex-presidente Lula no escândalo.

Em resposta aos que desqualificam suas acusações, Valério afirmou que os documentos foram entregues em setembro, quando falou à Procuradoria. Numa breve declaração, queixou-se: “Os procuradores não tocaram nos papéis que deixei lá”.

A Folha apurou que, entre os documentos, está o registro de depósito dos R$ 98,5 mil que, diz Valério, foram usados para pagamento de despesas pessoais do ex-presidente Lula na posse e no primeiro mês de seu primeiro governo.

O cheque foi destinado à empresa de segurança Caso, de Freud Godoy, ex-assessor pessoal de Lula.

Esse depósito já havia sido identificado pela CPI dos Correios, aberta para apurar o caso em 2005, mas na época Valério nada disse.

Segundo a Folha apurou, não há registro do que foi comprado com o dinheiro repassado. Em depoimento, Freud alegou que o recurso foi empregado em gastos com segurança da posse.

Procurada, a defesa do empresário não detalhou que outros papéis foram entregues.

  Editoria de Arte/Folhapress  

FORO

Condenado a 40 anos e quatro meses de prisão por ter operado o esquema, Valério responsabiliza o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha pelo desfecho do processo, com 25 condenações.

A interlocutores, Marcos Valério afirma que o processo não teria o mesmo resultado caso fosse julgado em primeira instância, com possibilidade de recursos.

Advogado de Valério, o criminalista Marcelo Leonardo conta que chegou a articular no Congresso a aprovação de emenda constitucional que dava fim ao foro privilegiado, que define o STF como tribunal para o julgamento de parlamentares.

Liderados por Dirceu, os petistas, no entanto, orientaram a bancada do partido a não dar quorum para votação do texto. A defesa pediu cinco vezes desmembramento do processo para que Valério fosse julgado em primeira instância, sem sucesso.

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