O Grande Golpe

Cada dia mais me chama a atenção a forma como veículos de informação espalham boatos e amplificam boatos. Da mesma forma como ocorreu em 2006, o episódio dos ataques da facção criminosa que comanda presídios no estado, surge, por ora, as mesmas mazelas que fizeram a cidade parar naquele ano.

Como jornalista e atuante na área policial através de reportagens investigativas sei da dificuldade de se levantar informações acerca do número de mortos (homicídios) numa única noite na Capital, quanto mais nos municípios da Grande São Paulo e ainda mais no Estado. Compilar os casos de homicídio, latrocínio, e até mortes naturais, não é coisa tão fácil. Mas me chama a atenção como a imprensa vem sendo ágil na apuração destas informações.

Veja abaixo o relato do G1 em matéria sobre a “guerra” que a cidade vive entre bandidos e policiais, com resultado letal para ambos os lados. Desta forma, é preciso analisar como as informações são veiculadas e quais são essas informações. De imediato, chama a atenção um trecho retirado do portal G1.com.br em que um comandante de Batalhão, durante a operação “Saturação” na comunidade de Paraisópolis trata um detalhe: a lista contendo 40 nomes de policiais militares e civis:

Lista
“Posso confirmar oficialmente, em nome da PM, que o 16º Batalhão apreendeu uma mala, apreendeu também documentação dos criminosos e apreendeu menores tentando retirar essa mala do local. Na mala tinha uma lista com nomes de PMs e de policiais civis que estavam marcados para morrer”, disse o coronel Marcos Roberto Chaves, comandante de Policiamento da PM na capital.

Para um trabalho de investigação e inteligência, a localização da lista em poder de dois menores, é uma informação importante. Do ponto de vista da investigação, a divulgação da informação é ruim, porque os responsáveis com certeza já desapareceram, mesmo a polícia tendo apreendido dois menores. Antes de divulgar, o comandante deveria deixar a lista para uma investigação mais aprofundada, a fim de se chegar aos responsáveis.

De acordo com o comandante, os documentos da facção que foram apreendidos na Operação Saturação corroboram a suspeita do serviço de inteligência das forças de segurança de que as ordens para matar alguns PMs partiram realmente da Zona Sul. A lista possui descrições de cada um dos policiais, como rotinas, trajetos do trabalho para casa, características físicas e etc.

Mais assustador é o fato de a facção criminosa ter condições de manter vigilância sobre PMs. Já imaginou a infraestrutura para obter esses dados?  Pense comigo: descrição detalhada dos policiais, ou seja, característica físicas (tudo bem isso é fácil), rotinas diárias (neste caso é preciso seguir, observar, ficar a espreita), por horas, dias, semanas, meses, para ter certeza da rotina que o profissional realiza, quando sai de casa, para onde vai, onde passa, quando volta.

“As ordens estavam partindo dali, segundo o serviço de inteligência. Para confirmar todo esse trabalho foi preciso entrar num dia específico na favela de Paraisópolis. Não podia ser durante as eleições porque a lei eleitoral não permitiria algumas prisões, exceto em flagrante delito”, afirma o comandante.

Se as ordens partiam daquele local, não seria prudente reservar o local e fazer o mesmo, espreitar, cercar, tirar as características físicas de quem usa o imóvel, suas rotinas, e efetivamente ter seu histórico para evitar que as ordens e os salves fosse cumpridos?

“Essa documentação é uma prova importante que será analisada para saber se tem relação com os ataques que tivemos. Ela tem muitas informações, além dos ‘salves’ [ordem dos ataques], tem como é feito o batismo dos novos integrantes”, explicou o coronel.

Evidentemente, a prova foi queimada, ou pode ter sido plantada, naquela comunidade e, principalmente, na imprensa, para justificar as ações violentas que a PM está sendo vítima e ainda colocar em xeque as decisões dos comandantes (leia-se secretário de Segurança Pública, Antonio ferreira Pinto, e o governador do Estado, Geraldo Alckmin). Diga-se, de passagem,  que os policiais – a tropa como um todo – e evidentemente alguns de seus comandantes – não seguem a cartilha da aplicação e da ideologia política, partindo do pressuposto que estes nada fazem para melhorar as condições de trabalho dos policiais, ainda que mantenham as regalias dos oficiais.

A revolta dos agentes públicos pode explicar, em parte ou no todo, o por quê da imprensa estar sendo alimentada diariamente com informações sobre toque de recolher em bairros mais afastados da Capital, caso dos extremos sul e leste. Sem nenhuma confirmação, comerciantes baixam as portas, moradores voltam mais cedo para casa e deixam de concluir suas atividades diárias, como ir a faculdade à noite, por exemplo. Uma aluna de uma instituição de ensino superior particular informada por um “tio Capitão PM” quis voltar para casa mais cedo com medo do toque de recolher no bairro onde mora, a lado do Morumbi, na zona Sul. “O próprio oficial informando sobre toque de recolher?”

Alimentar a cadeia de boatos, seja por meio da imprensa, plantando listas, toques de recolher, passando informações detalhadas sobre homicídios e latrocínios ocorridos na cidade em escala diária, não ajuda, apenas fomenta o medo, a insegurança e a tensão. A violência tem de ser combatida de forma imediata, com resposta a altura, mas também por intermédio da comunicação. No episódio ocorrido em 2006, a velocidade dos boatos alimentaram a cadeia informativa de rádios, Tvs, jornais, internet e não recebeu uma resposta em tempo para conter o medo da população de sofrer ações violentas por uma facção cujos governantes teimam em dizer que não existe.

Ela existe, faz muitos correligionários nas prisões, especialmente pelo fato de o Estado não dar condições dos presos viverem com dignidade lá dentro. Todos os familiares de presos sabem que o preso deve receber o “JUMBO” com comida de qualidade, com papel higiênico, pasta de dente, escovas, doces, aparelhos de barbear, cigarros, porque a moeda de troca deve existir, já que a droga corre solta lá dentro assim como é preciso alugar cama, colchões e espaço para dormir. Em sã consciência, o preso sai de lá devendo mais do que conseguiu roubar aqui fora e deverá pagar com serviços para a facção, entre a prática de roubos, furtos e tráfico até morte de policiais, sejam civis ou militares.

Com tudo isso e com o descontentamento geral dos agentes públicos é evidente que há algo de política podre no ar. Há sim, uma jogada política que demanda poderes a tal facção, que orienta seus atos e que faz girar a roda de ataques ou execuções. Enquanto houver interesse, e esse interesse, pelo demonstrado aqui, existe, os ataques não cessarão, as mortes continuarão para que o cidadão se sinta cada dia mais ameaçado e tenso. É a forma mais simples de se acabar com o poder político de quem está no poder.

Veja reportagem do G1 publicada nesta quinta-feira:

PM acha lista de policiais marcados para morrer em

ação em favela de SP

Documento feito por criminosos foi encontrado na terça na Zona Sul de SP. Material apreendido confirma ordens de execução, diz coronel da PM.

Kleber TomazDo G1 São Paulo

A Polícia Militar de São Paulo encontrou uma lista, feita por criminosos de uma facção, com nomes de policiais militares e policiais civis marcados para morrer. Segundo informou nesta quarta-feira (31) o Comando de Policiamento da PM na capital, o documento foi apreendido dentro de uma mala juntamente com dois irmãos adolescentes no início da noite de terça-feira (30) durante a Operação Saturação na favela de Paraisópolis, na Zona Sul da cidade.

Também foi localizado o balanço da movimentação financeira do tráfico de drogas na região. O material deverá ser levado para a Polícia Civil, que investiga a onda de violência que assola o estado.

Os menores de idade detidos com a lista estavam tentando sair da comunidade. Desde segunda-feira (29), Paraisópolis foi ocupada por tempo indeterminado após o serviço de inteligência das forças de segurança do estado ter informações de que partiram dali as ordens de bandidos para matarem os agentes da lei.

saiba mai

Aproximadamente 40 nomes de policiais militares e outros dois de policiais civis estão na lista, escrita à mão pelos criminosos para ser repassada a outros integrantes da facção que age dentro e fora dos presídios paulistas. A ordem é matar dois policiais para cada criminoso morto. O motivo seriam execuções praticadas por PMs contra os criminosos.

Desde janeiro, 86 PMs já foram assassinados. Trinta e sete deles foram mortos com características de execução. Na maioria dos casos, os criminosos usaram motos para praticar os homicídios e fugir em seguida.

Criminosos presos

De acordo com a PM, até esta quarta, 20 criminosos são procurados por suspeita de participação em ataques que mataram policiais militares. Outros 20 suspeitos foram mortos em confrontos com a polícia e 129 bandidos estão presos.

Um desses detidos é o traficante Francisco Antonio Cesário da Silva, o Piauí, investigado como o mandante das ordens para matar PMs. Policiais civis informaram que a lista com nomes de agentes marcados para morrer, encontrada na terça pela PM, deverá ser atribuída ao criminoso preso. Para isso, deverá ser entregue ao Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga a morte dos policiais.

Piauí está preso desde agosto em Avaré, interior de São Paulo, após ter sido recapturado pela PM e Polícia Federal em Itajaí, interior de Santa Catarina. Ele havia fugido em maio deste ano durante a saída temporária do Dia das Mães. O homem tinha sido preso a primeira vez em 2008 por porte ilegal de arma, receptação, roubo, sequestro, falsidade ideológica e homicídio.

Recentemente passou a ser apontado também como responsável pela morte de seis policiais militares neste ano. Quando fugiu, foi flagrado em interceptação telefônica ordenando a morte desses PMs. Existe a possibilidade de a polícia pedir a transferência de Piauí para a Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior paulista, por ser considerada de segurança máxima. Lá estão outros integrantes da facção, que são considerados perigosos e influentes dentro do grupo criminoso.

A lista apreendida em Paraisópolis ainda possui o organograma da facção, com nomes de criminosos que deixaram de cumprir as ordens criminosas para executar os policiais. Para eles seriam aplicadas penas, decididas em uma espécie de “tribunal do crime”.

Os “julgamentos” ocorreriam dentro de um imóvel na favela. Foi de lá que a documentação apreendida teria saído com dois irmãos gêmeos. Um homem responsável pelo local é suspeito de ter passado o material para os adolescentes, que têm 17 anos, quando percebeu que a PM cercou a comunidade.

Toque de recolher

Por conta da ocupação, moradores da favela, e de outras comunidades carentes onde ocorreram assassinatos, chegaram a relatar que criminosos em motos passaram ordenando que o comércio, escolas e ônibus não funcionassem durante as noites por conta de um toque de recolher.

Em entrevista coletiva na terça, o secretário da Segurança Pública do Estado, Antonio Ferreira Pinto, negou a informação, chamando-a de “boataria”. Em meio a onda de mortes, o governo de São Paulo e o governo federal divergiram sobre uma possível ajuda para combater a violência no estado paulista. Ferreira Pinto confirmou nesta terça-feira que ordens para assassinar policiais partiram de Paraisópolis.

Nesta quarta, a PM também realiza incursão à favela São Remo, na Zona Oeste da capital, em cumprimento a oito mandados de prisão e 13 mandados de busca e apreensão de suspeitos de participar da morte de um policial das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) neste ano.