O “DONO” DA DELEGACIA DE FRANCO DA ROCHA

Faço questão de publicar aqui texto da repórter Fátima Souza, colega de profissão e de empresa, quando atuávamos pela Rede Bandeirantes de Televisão. Repórter policial e investigativa que sempre busca a verdade dos fatos, por isso incomoda.

Seu relato é uma demonstração de quanto e como os valores estão modificados. Basta fazer uma comparação qualquer para se verificar como a lei neste país é feita apenas para prender quem não tem “amigos”, quem não tem “fama”, quem não tem “advogado” e para quem não tem, evidentemente, “dinheiro”. De políticos à empresários, de politiqueiros à artistas, de deputados e senadores à riquinhos de bairros chiques das grandes cidades, poucos são levados à lei, conforme previsto nos textos da própria lei.

Tanto é assim que vemos, constantemente, nossos direitos como cidadãos de bem sendo usurpados pelos calhordas de Brasília, de partidos políticos que usam e abusam do poder que lhes é dado, transformando este país em um seviçal de seus desejos de enqriquecimento e manutenção de status. Não é a toa que pessoas que tem um pouquinho de visibilidade viram estrelas e passam a ser tratadas como seres inatingíveis, pois são diferentes do cidadão comum. Alguém ai tem alugma “esperança” de que isso vai mudar?

O pior é um delegado de dedo em riste (como descrito pela jornalista) dizendo à profissional de imprensa para “cair fora” de uma Delegacia de Polícia e ainda afirmar que a delegacia “é dele”. Isso é o fim da picada…!!! Onde estão os direitos do cidadão então? Se eu quiser entrar naquela delegacia tenho de pedir autorização? Esse é o reflexo de um pais sem ordem, nem progresso. Estamos caminanhando para trás.

O profissional de jornalismo pergunta de forma incisiva para que a lei seja cumprida em igual “peso e tamanho” independente de quem quer que seja e acaba expulso de uma delegacia por uma “AUTORIDADE” , uma autoridade daquelas que transformam o “público em objeto particular”.

Vale uma investigação mais profunda neste caso e em outros que envovel essas autoridades. Afinal, em um recente acontecimento até agora não explicado, um delegado do 69 DP cuidava de todos os casos do Itaú, porque, como se diz, tinha interesses de investigaçã. Mas poderiam ser também interesses privados, usando o bem do Estado para responder por negócios particulares junto a um cliente necessitado.

Abaixo, o texto explicativo e descritivo de mais uma cena do Jornalista X Autoridade…

Texto de Fatima Souza, repórter policial
 
Aos berros e com dedo em riste o delegado titular Luís Roberto Faria Hellmeister me expulsou da delegacia de Franco da Rocha e ameaçou me dar ordem de prisão por “desacato a autoridade”. O homem parecia insano. Gritou comigo na frente de outros colegas de profissão, do SBT, da Band, da Rede TV, do Jornal Agora… Fumando um cigarro atrás do outro – dentro da delegacia – o Hellmeister ficou “ofendido” com perguntas que fiz durante uma coletiva concedida por ele no sábado, 24 de Setembro de 2011, sobre a detenção do ex-árbitro de futebol e comentarista esportivo, Oscar Godoy.
As quatro e meia da tarde, Godoy atropelou, sobre a faixa de pedestre, a jovem Carolina de 19 anos. O comentarista tinha acabado de sair de uma festa em Franco da Rocha e ao avançar sobre a faixa atropelou a moça, que foi levada, com escoriações e três “galos” na cabeça para o Hospital. Segundo testemunhas Godoy estava totalmente embriagado e “cortou” uma moto e um carro que estavam parados antes da faixa, atropelando a moça, mãe de um bebê de seis meses que, por felicidade estava nos braços do marido dela na hora do acidente. O marido dela contou que Godoy não conseguia nem falar e nem sair de seu carro após o acidente, de tão embriagado que estava e que pessoas rodearam seu carro para evitar que ele tentasse fugir. Levado para a delegacia Godoy estava visivelmente alterado, precisando do auxilio de policiais militares e depois do próprio delegado Hellmeister para andar, entrar na viatura e subir as escadas da delegacia de Franco da Rocha. Imagens registradas pela TV Record o mostram praticamente cambaleando. Tentei entrevista-lo mas ele não respondeu as minhas perguntas se limitando a fazer um sinal de “positivo” com a mão.
Os policiais militares disseram que ele se recusou a fazer exame no bafômetro e que, por duas vezes levado ao hospital para fornecer sangue para exame de dosagem alcoólica ele se recusou. Ai o Hellmeister, o delegado, conversou com o Godoy e o convenceu a ir, pela terceira vez, ao Hospital. Desta vez ele permitiu que tirassem seu sangue e também tomou uma injeção de glicose na veia para diminuir os efeitos do álcool em seu organismo.
De volta ao distrito o delegado Hellmeister reuniu os jornalistas para uma coletiva. Como as respostas que vinham dele às minhas perguntas não satisfaziam, insisti nos questionamentos. Disse, por exemplo, o delegado que o caso com o Godoy foi uma “fatalidade”. Estranhei a postura da autoridade com esta afirmação e retruquei perguntando se era “fatalidade ou uísque”!
Disse também o delegado que os ferimentos da moça era mínimos e que “nem sequer a roupa dela foi rasgada”, o que me fez retrucar: “neste momento interessa a gravidade dos ferimentos da moça ou o fato do Godoy estar bêbado?, perguntei. Afinal, pouco ou muito ferida, a moça foi atropelada! Também, durante a coletiva, a autoridade disse que o Godoy estava em “baixa velocidade”, e eu questionei: “como o senhor sabe? Já ouviu testemunhas?”. Hellmeister disse que ainda não tinha ouvido ninguém mas “calculava” que se o Godoy estivesse em alta velocidade a moça teria se machucado muito mais. Insisti dizendo que o Godoy estava visivelmente embriagado e o delegado respondeu que quanto a isso precisava aguardar o exame de sangue que o comentarista tinha acabado de fazer. Também deixou claro o doutor delegado que o Godoy estava muito abatido, chateado e triste e que tinha até “chorado”.
E assim foi… Hellmeister parecia não estar muito contente com minhas perguntas mas esta é a minha função de repórter. Como última pergunta eu disse a ele: “Doutor, o senhor disse que se fosse um “zé ninguém” a imprensa não estaria aqui. E, se fosse um “zé ninguém”, o senhor estaria aqui? Teria saído de casa, na sua folga, para vir atender a ocorrência? Ah! Ai a autoridade perdeu a classe! Levantou da cadeira, esticou o dedo em direção ao meu nariz e começou a gritar de forma insana: “a senhora é uma repórter espúria!”… “não vai fazer perguntas capiciosas comigo não”! “se retire da “minha” delegacia!”… “Enquanto eu for delegado aqui você não pisa mais aqui dentro!”… “Fora, prá fora, já prá fora repórter inexperiente”! E foi assim, aos berros que o doutor me expulsou da “sua” delegacia. Não sem antes dizer que iria me prender: “vou te prender por desacato a autoridade!” berrou o “dono” da delegacia de Franco da Rocha. Um investigador que estava de plantão encostou em mim e pediu para que eu me retirasse porque o delegado estava muito “nervoso”. Nervoso com que? Perguntei… Por eu insistir para chegar a verdade? Por exercer minha profissão? Em que momento “desacatei” o doutor? Sai do Delegacia e fiquei o resto do tempo do lado de fora, aguardando a saída do Godoy que tomava café preto e respondia as perguntas do Hellmeister.
No final das contas o Godoy assinou Boletim de Ocorrência de “lesão corporal leve e embriagues ao volante”. A moça saiu do hospital e, após uma tomografia, ficou constatado que não havia danos no cérebro, graças a Deus. Está com o pescoço e a cabeça inchadas e com um leve problema na coluna que “esticou” muito quando ela foi atropelada pelo Godoy, caindo sobre o carro dele (inclusive, estourando o vidro da Jafira do comentarista) e depois caindo ao chão.
Liberado o Godoy foi para casa. O delegado também. Eu? Fiquei com a impressão de que os outros é que bebem e eu levo a culpa! Mas muito, muito feliz em exercer minha função com dignidade, perguntando o que as pessoas não querem ouvir porque as incomoda.

Anúncios